SAMUEL RAWET: LITERATURA E DIÁSPORA
Claudia Fernanda Chigres – PUC/Rio
Vicente. Esse é o nome de um conto de Miguel Torga[1], no qual um corvo se insurge, ainda na Arca, contra a onipotência de Deus, indo de encontro a toda uma existência coletiva marcada por seres eleitos – os que foram escolhidos para estarem seguros na barca – e condenados – os que sucumbiram ao dilúvio. Inconformado com os desígnios a que deve obedecer, Vicente abandona sua gente em busca de liberdade, e lança-se aos céus ainda nebulosos, superando o instinto da própria conservação e reservando para si a autonomia da criatura em relação ao criador. Para ele, a significação da vida ligava-se indissoluvelmente ao ato de insubordinação.
A referência ao corvo de Torga, ainda que recusada veementemente pelo personagem, dá o tom inicial do livro de Samuel Rawet, Viagens de Ahasverus..[2].: desterro, busca de individualidade, desafio, relação com Deus. Suspensa no mar por 40 dias e 40 noites, a arca de Noé é o emblema de um drama vivido por Ahasverus. Também ele está suspenso – suspenso no tempo, no espaço e em sua própria consciência, metamorfoseando-se num mundo urbano e cosmopolita, marcado pela anunciada morte de Deus. Tal como Vicente, Ahasveruspisa em terra alheia, cunhando em seu corpo o paradigma do estrangeiro, do outro. Diferente de Vicente, porém, Ahasverus sabe que já não há mais dilúvios, arcas, Noés, nem mesmo Deus a quem desafiar:
Ahasverus reuniu todas as questões possíveis sobre a necessidade e a possibilidade da existência de um Deus, ou de um deus. O que esperava ele, afinal, de Deus? Um infinito sentimento de culpa, uma desculpa para fugir à própria responsabilidade dos atos que compunham seu cotidiano num universo que escapava à sua compreensão porque ele, ou qualquer outro, era um ser dotado de consciência, um criador permanente de realidades singularizadas. Pensou no que pensaria um futuro pensador: se Deus está morto, tudo é permitido! Uma ova! (p. 53)
O desmoronamento da idéia de Deus é um fator problematizante para o homem que, se por um lado acreditou que pudesse recuperar a liberdade de sua experiência, por outro, se viu diante do infinito poder de negar, sem que nada tivesse para colocar em seu lugar. A consciência do vazio deixado pela morte de Deus permitiu ao homem deparar-se com o nada transcendental e, em contrapartida, afirmar a imanência radical de si mesmo. O resultado, para Ahasverus, é um profundo sentimento de angústia, que o move a um deslocamento incessante, ou, como ele mesmo afirma, a uma “imersão na certeza informulada da própria consciência” (p.27).
O livro inicia com Ahasverus a olhar para o Indefinido além da janela, procurando uma identificação para seu estado: “Não sabia se era real como resíduo de um sonho, se era sonho, resíduo do real” (p.15). Visando a (re)construir sua identidade de maneira transversal à tradição, seja ela religiosa, social ou mesmo literária, Ahasverus, para utilizar as palavras de Foucault,
mais do que cicatriz marcada num instante qualquer da “duração”, ele é a abertura a partir da qual o tempo em geral se pode reconstituir, a “duração” fluir e as coisas surgirem no momento que lhes é próprio. [3]
A experiência da Diáspora – dispersão no espaço e no tempo, conjugando cosmopolitismo e desenraizamento – estende-se, em Samuel Rawet, para a prática textual. Ahasverus sabe que já não está mais na Arca, protegido por um ethos[4] definidor de identidades e condutas. Agora, sua vivência seria construída, não apenas por uma experiência dada, mas sobretudo por uma identidade incerta, dilacerante e ao mesmo tempo crítica e interrogativa. Tinha passado? Tinha futuro? Em que terra estava? A sensação de estranheza estende-se não somente à língua, à cultura, à origem e à religião, mas principalmente a ele mesmo, à sua existência individual e coletiva. Todas as coisas se tornam absolutas e o exato instante exige uma ausência para si mesmo, numa simultaneidade em que tudo, paradoxalmente, é relativo. Há uma força primária que o obriga a experimentar-se ao experimentar contextos diversos, metamorfosear-se em fragmentos dispersos, costurar imagens e margens, nas quais o desterro da terra é também o exílio de si mesmo.
Essa interrogação, ao longo da narrativa, caminha para um deixar-se indefinir, mesmo que dolorosamente, inclusive a relação entre exterior e interior, entre agora e outrora. Indefinir esta relação fundamentalmente através da dissolução desta distância, transformando o espaço em que ela se dá em superposição e confluência. Como alcançar esta indefinição, como analisar esta distância, esta fissura? Explorando e exteriorizando todas as distâncias, misturando-as, fazendo proliferar as imagens e as sensações a elas correlatas, ao mesmo tempo que fazendo das sensações novas imagens, pertencentes a tempos e espaços diferentes, multiplicados e indefinidos.
Desestruturando o espaço da percepção habitual, a narrativa vai definindo plasticamente um novo plano, que se dá fundamentalmente no próprio corpo de Ahasverus – corpo como unidade sensitiva, como potência de transformação da própria discursividade do texto. Corpo que se metamorfoseia na e como linguagem, que fala de suas marcas e por elas tece o relato agônico de um espaço de violência, sexo, loucura e decepção. Que preenche os vazios da linguagem, da impronunciável dor de sentir-se só e ao mesmo tempo detentor de todas as memórias.
A sensação de clandestinidade que Ahasverus parece experimentar, de estar solto no tempo e no espaço, numa mobilidade total e perturbadora, pode ser exemplificada pela imagem de ex-tradição tecida por Ricardo Piglia[5]. Se a extradição supõe uma relação forçada com um país estrangeiro, a ex-tradição vivida pelo escritor alude a uma situação de fronteira entre a história anterior e sua atualização. Piglia considera que, para um escritor, a memória é a tradição vivida como um sonho, que comparece involuntariamente à consciência. Por ser impessoal, essa memória não remete necessariamente ao país de origem, mas à coleção das coisas escritas, vistas e vividas. Diante desse sonho anônimo, cabe ao escritor dar-lhe um nome, atualizando sua identidade:
La identidad de una cultura se construye en la tensión utópica entre lo que no es de nadie y es anónimo y esse uso privado del lenguaje al que hemos convido en llamar literatura.[6]
Se não há uma memória de inerência, não há condição de uma única identidade, encarada como verdadeira. A identidade construída pelo escritor se situa, portanto, fora desse espaço, ou melhor, na fronteira entre o conhecido e o desconhecido, o estrangeiro e o nacional, o familiar e o estranho, entre a terra de todos e a terra de ninguém. A prática do deslocamento parece acolher todas essas experiências, ao mesmo tempo anônimas e íntimas, atraindo e expulsando, consumindo e resgatando. Ao introduzir o fluxo de associações históricas, culturais e religiosas, provoca desvios, convoca a errância, tanto pelo pensamento como por atos, onde a questão da unidade-identidade é encarada como sonho, como fantasia.
A experiência artística, nesse sentido, ao se perder nos diversos espaços e em seus descaminhos, nos diversos tempos e em suas virtualidades, nas inumeráveis referências literárias e artísticas, exortando o que há de estranho e de familiar, o que há de tradição e de inovação, resulta na clandestinidade de um mundo possível, que se dá nessa sutura entre o esquecido e o lembrado, numa reorganização simbólica da vivência coletiva, pela experiência subjetiva do escritor. Ou melhor, por uma estranha forma de nomeação.
Não são poucas as passagens do texto em que Ahasverus precisa nomear ou renomear lugares ou imagens sugeridas pela memória involuntária. Na referência ao nazareno, por exemplo, em nenhum momento o nome de Jesus é abordado. Este, se não chegara a lhe dar o nome, também não é por Ahasverus reconhecido como tal:
Nunca mais se viram. Num ou noutro lugar ainda ouviu falar dele, mas devia haver engano. Mostraram-lhe imagens, mas não o identificou. Devia haver um engano. E seria tão bom conversar com ele. Fora na verdade o companheiro mais alegre que encontrara. Quando vira o nazareno? Que relação tinha ele, Ahasverus, com o nazareno? Nada podia, nada sabia afirmar. No entanto sentia-se estranhamente ligado a ele, entrevia, às vezes, uma relação vital nas duas existências. Mas sabia, também, de uma distância quase infinita a separá-los.(pp.19-20)
Ao mesmo tempo forte e difusa, a lembrança da convivência com o nazareno é única, e não encontra correspondência em materializações cristalizadas, como o crucifixo, que nada diz, e tampouco com a palavra, desligada de sua evidência imediata. L’univers – miroir d’un nombre. Se na tradição cabalística, o nome de Deus é sagrado, impronunciável, na prática textual de Rawet o nome só terá significado por uma revelação da experiência, transmudada em consciência. Aí, deixará de ser apenas um ícone sagrado para se tornar um veículo onde a transitividade se abre a múltiplas leituras. A palavra, portanto, perde seu caráter de pura nomeação, para se tornar também ação.
Retomando a figura da ex-tradição, podemos agora acrescentar que ao se situar na fronteira, nesse entre-lugar cultural e textual, Ahasverus pode perceber – e receber – todo um arcabouço de circunstâncias que o envolve, e desenvolver, a partir daí, sua própria transfiguração, não simplesmente adaptando elementos outros, mas remodelando-os de acordo com seu entendimento e necessidades, com sua linguagem e suas referências. Nesse sentido, Ahasverus tem, para utilizar outra expressão de Piglia[7], um olhar estrábico: um olho voltado ao que acontece ao redor, outro olho voltado para as entranhas de sua própria cultura e consciência. O que, de um e de outro (re)vela, seja por saturação, seja por acréscimo, desdobra-se em criação, diálogo com um estranho espelho que, ao ser anteposto a um objeto, devolve uma imagem, nem totalmente outra, nem totalmente exata, mas distorcida e transfigurada, na qual o reconhecimento é garantia de sua estranheza. Como diz, tinha “um olho dentro do olho, espreitado e espreitando, incapaz quase sempre de assumir suas metamorfoses ou de perceber entre o que pensava enquanto Ahasverus e o que era quando não era Ahasverus, mas ser produto de uma volição e de uma consciência”.(p.17)
Se a espacialização do tempo permite uma percepção não-linear da história, apresentada em sua descontinuidade, a permuta entre tempos e espaços descortina novas vias de acesso à tradição, entendida como um texto palimpsesto, com múltiplas leituras, bem como a consciência de que a única expressão possível da realidade é a encenação plástica e textual dessa experiência de despersonalização, fazendo do texto um mundo possível e do mundo um constante fazer-se. Fazer da experiência literária a metamorfose de si mesmo:
Ou era melhor, quem sabe, aprender a conquistar o presente, um presente dinâmico, sempre alterado pelo que vem depois e pela recordação do que veio antes, um presente soma de instantes descontínuos, um presente lúcido, em que sempre se reconquista a totalidade, com a morte não como barreira, fato a lamentar, mas o horizonte que justifica o aqui e o agora. (p. 57)
Esta totalidade é, portanto, cunhada na narrativa como uma representação móvel, trabalhada. Passado, presente e futuro são redescobertos porque recontados, indo ao encontro do desejo, da memória e das expectativas. Se a experiência da diáspora produz-se na discursividade, esta, por sua vez, é também produtora de identidade, ou melhor, de identidades. Vale mencionar o final do livro, em que Ahasverus, curiosamente, se metamorfoseia em três elementos da chamada identidade brasileira: um mendigo negro, um entalhador mulato e um vendedor de cocadas, branco. Sendo recolhidos pela polícia, pois nenhum deles tinha documento, passam a noite da cadeia:
Mas no crepúsculo matinal os três que eram um só e nenhum, trindade gerada e nutrida por uma ficção, talvez, um equívoco, no crepúsculo matinal saíram com a claridade e na forma de um cão vaguearam pelas ruas.(p. 64)
Podemos completar, pelas ruas e pela linguagem, criando um espaço simbólico capaz de produzir, ainda que discursivamente, tantos quantos forem os recortes e espelhos, várias formas de se abordar a questão da identidade, e a sensação de ser para sempre um estranho a construir-se como corvo, como múltiplo, como cão vadio. Construir-se, enfim, como sujeito de sua própria ficção, sonho ou realidade:
E depois de sucessivas transformações, Ahasverus foi Samuel Rawet com plenitude, escreveu VIAGENS DE AHASVERUS À TERRA ALHEIA EM BUSCA DE UM PASSADO QUE NÃO EXISTE PORQUE É FUTURO E DE UM FUTURO QUE JÁ PASSOU PORQUE SONHADO, e como Samuel Rawet sondou o mundo. E Ahasverus, farto de metamorfoses, realizou a mais dura, e mais penosa, a mais solene, a mais lúcida, a mais fácil, a mais serena. Metamorfoseou-se nele mesmo, Ahasverus. (p.65)
[1] Miguel Torga. Bichos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.
[2] Samuel Rawet. Viagens de Ahasverus à terra alheia em busca de um passado que não existe porque é futuro e de um futuro que já passou porque sonhado. Rio de Janeiro: Olivé Editor, 1970.
[3] Michel Foucault. As palavras e as coisas. Uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 1990, p. 432.
[4] Henrique de Lima Vaz define ethos como “abrigo simbólico que contém em si uma experiência civilizatória continuada, isto é, como circunstâncias que constrangem e organizam a percepção (e conduta) de determinado grupamento humano em uma dada época”, In: Escritos de Filosofoa II. Ética e Cultura. São Paulo: Loyola, 1988, pp. 11-16.
[5] Ricardo Piglia. “Memoria y Tradición” In: Anais do II Congresso Abralic. Belo Horizonte, 1991, Vol. I.
[6] Ibidem, p. 61.
[7] Piglia, [1991], p.61.